IMAGINE. LEIA. NAVEGUE.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Imagine da Isa


Era meu primeiro dia em um curso que minha mãe cismou em me colocar. Não que eu não tenha gostado, porque até achei maneiro. Confesso que precisava conhecer gente nova, sabe? Estava cansada de ver os mesmos rostos, as mesmas atitudes. Ainda mais depois do que aconteceu com o garoto idiota que meu coração resolveu escolher para que eu amasse. Mas enfim, passado é passado.

Depois de descer da condução, entrei no estabelecimento. Fiquei procurando algum funcionário do curso para descobrir aonde ficava minha sala, mas nenhum deles apareceu. Resolvi perguntar a um aluno mesmo. E fiz questão de procurar um aluno mais bonitinho. Porque eu sou dessas.

Rodei meus olhos pelo primeiro andar do curso. Na verdade não tinha muitos garotos bonitos, mas um me chamou atenção. Ele tinha um estilo meio nerd e meio despojado. Difícil de explicar.

-Licença, você pode me dizer aonde fica essa sala? -Mostrei um pequeno papel para ele onde anotei umas informações que achei que seriam importantes.
-Ah, sei, sim. Fica do lado da minha sala. -Ele disse. Parecia um pouco tímido.
-E você sabe me dizer se eu estou atrasada? Porque eu estou bem perdida mesmo. Não sei se faço o mesmo curso que você -Fiz uma careta.
-Eu sou do militar -Caraca, militar! Casa comigo, tipo, agora- E na verdade, a sua aula é só daqui a meia hora. Começa junto com a minha.
-E você chega cedo assim sempre? -Fui abusada em perguntar mesmo.
-É, eu gosto de chegar antes para estudar um pouco -Sorriu, dando de ombros. 
-Ah, entendi... -Sorri também, e então, ficamos nos encarando- Qual seu nome?
-Ricardo.
-Nossa, que nome maneiro! -Sorri, sincera- Parece até aqueles caras musculosos que ficam nos programas -Ri durante um tempo e percebi que ele ficou um pouco vermelho com o meu comentário- Ai, desculpa.
-Não, tá tudo bem. Muita gente fala isso -Sorriu.
-E você gosta?
-Nunca parei para pensar, na verdade -Rimos. Ele tinha uma vibe legal.
-Está gostando do curso? -Geralmente não era eu quem puxava os assuntos, mas esse Ricardo é um garoto tão interessante que eu nem me importo de inventar coisas para manter a conversa viva.
-Sim. E eu curto estudar, sabe? Saber as coisas... 
-Uau. Isso é raro! -Disse, fazendo-nos rir.
-Você não gosta?
-Não odeio, mas também não é uma das minhas coisas preferidas para fazer. E as vezes me dá preguiça -Admiti e ele riu. É um avanço.
-Você quer fazer prova para que concurso? -Perguntou, interessado. Percebi que ele é nerd mesmo. Ok, né.
-Todos possíveis -Soltei um risinho- Mas o principal é Cefet. Quero fazer edificações.
-Acho legal.
-Pois é, eu também -Rimos e ficamos nos encarando mais uma vez.  
-Hm, você quer vir comigo? -Perguntou, um pouco sem graça. Essa timidez toda tornava-o fofo- Para a sala de aula... Eu posso te levar -Explicou.
-Claro. Vamos, sim -Sorri.

QUATRO semanas depois...


Ricardo é lindo, nerd, fofo e lento. Sim, lento! Nem as qualidades dele o livraram da minha raiva. E, sim, de novo, estou com raiva de um garoto porque ele é lerdo demais para perceber e entender as coisas ao redor dele. Se está no caderno, no livro, tudo bem, ele entende tudo! Agora a vida real, o que realmente acontece, ele não vê. Sério, minha paciência já está se esgotando. E olha que do jeito que eu sou, já era para ter ido embora há muito tempo.


Bufei com esses pensamentos. No meio da aula eu ficava lembrando dele. E nem na aula do professor mais lindo eu conseguia tirá-lo da minha mente.


Os outros garotos com quem eu me "relacionei" foram bem mais fáceis de lidar. Eles tinham assunto, eles conversavam comigo, eles percebiam quando as coisas estavam fora do comum. Quando era para ser amizade, quando não era para ser... O Ricardo -Ou, melhor, Ricardão (apelido que minha amiga deu para ele)- é totalmente o oposto.


Se passaram quatro semanas desde que nos conhecemos e eu até fico surpresa quando ele vem falar comigo porque na maioria das vezes, eu que chego nele. Criamos, sim uma pequena "intimidade" e podemos nos chamar de amigos, mas mesmo assim ele continua com a timidez. É o jeito dele mesmo, mas me irrita. E o pior é que eu tô gostando dele... E desde o primeiro dia.


A aula acabou e eu guardei meu material rapidamente. Saí da sala de aula e quando estava saindo do curso, Ricardo estava conversando com um amigo. Como eu sou uma menina muito insistente, que não desiste nunca por ser brasileira, cheguei neles.


-Hm, oi -Disse, simplesmente, sorrindo.

-Oi, Isa -Ele falou, me respondendo.
-Fala aí -O amigo disse, me cumprimentando- Daqui a pouco a gente se fala,valeu?
-Beleza! -Fizeram um aperto de mão e depois o amigo dele foi embora- E aí, como foi a aula hoje? Aprendeu o quê?
-Ah, coisas... -Dei de ombros e ele riu- Vai fazer o quê agora?
-Não sei, eu ia para casa, e depois ia comer, estudar um pouco, dormir... Essas coisas.
-Quer ir no shopping comigo? Prometo que será bem rápido. Preciso comprar um presente para uma amiga que vai fazer 15 anos -Expliquei.
-Tá, pode ser, mas não vamos mesmo demorar, né? Porque eu realmente preciso ir para casa para...
-Estudar, eu sei -Completei, revirando os olhos e empurrando-o para fora do curso.

[...]


A praça de alimentação estava fazia e isso foi ótimo porque decidimos parar e comprar um sorvete. Sentamos em uma mesa para dois e ficamos conversando sobre coisas que, sinceramente, eram super tediosas. Ricardo gostava de ficar falando de jogo, de filmes... E o pior é que eu não conhecia nenhum deles. Precisava ensinar para esse garoto o que é viver de verdade, porque meu Deus!


-Ricardo, você já namorou antes? -Perguntei, assim que percebi que ficou um silêncio entre nós.

-Pergunta estranha... -Comentou, me olhando com a testa franzida. 
-Curiosidade... Somos amigos, quero saber, ué.
-Nunca namorei, mas já fiquei sério com uma garota por quase cinco meses -Respondeu.
-Por que terminaram?
-Não terminamos nada. Como íamos terminar uma coisa que nem tinha começado? Nós não tínhamos compromisso algum, mas eu me amarrava nela -Explicou.
-Ela é passado? -Perguntei, como quem não queria nada. Disfarcei tomando meu sorvete.
-É, já esqueci -Deu de ombros- E também, quem precisa de garotas quando se tem um concurso militar para se preocupar, né? -Eu realmente ouvi isso?
-Estudar é importante, mas não é tudo na vida -Afirmei.
-Sim, eu sei que não é, mas é o que eu gosto de fazer e é o que eu preciso fazer para alcançar meus objetivos.
-Mas você não pode simplesmente se esquecer das outras coisas que acontecem na sua vida por conta dos estudos.
-Mas eu não me esqueço, Isa.
-E sua vida amorosa? Como vai ela, então? -Perguntei.
-Está parada, mas quando eu passar no...
-Ai, Ricardo -Interrompi-o- É disso que eu estou falando! O que mais você deixa de fazer porque estuda? De tomar banho? De comer? De sair, passear?
-Não é bem assim...
-Sinceramente, eu já tentei de tudo, mas eu não sei lidar com meninos tipo você. Desligado, sabe?
-Isa... -Nem deixei ele falar.
-Enquanto você estuda excessivamente, acontece coisas na sua vida que você perde. E o pior é que acontece NA SUA CARA. E isso não é uma coisa boa, ok? Só para te avisar. SE LIGA! -Peguei minha mochila e saí da mesa, deixando-o sozinho na praça de alimentação.

Ele nem sequer correu atrás, me impediu de sair dali ou algo parecido. É um lento mesmo.


[...]

A aula estava chata e eu tentava prestar atenção, mas falhei na missão. Daí, de repente, a porta abre, fazendo a professora se calar e todos olharem para a entrada. Arregalei os olhos quando vi o Ricardo na porta, completamente sem jeito.

-Licença, eu posso falar com a Isabella? -Perguntou.
-Não demore, por favor -A professora respondeu, olhando para mim. 

 Concordei com um aceno de cabeça e levantei com o olhar de todos em cima de mim. Fui até a porta. Quando saí da sala, fechei-a e fiquei encarando-o. 

-É... Oi -Disse, sem jeito - Desculpa interromper sua aula.
-Ricardo, vá direto ao ponto, por favor -Pedi, já sem paciência com aquele "nhê nhê nhê" todo.
-Ainda tá brava comigo, né?
-Parece que estou feliz? -Ele engoliu em seco.
-Ok, vou falar -Enfiou a mão no bolso da calça e olhou fundo nos meus olhos- Depois de ontem, eu fui para casa queimando meus neurônios para tentar entender o que tinha acabado de acontecer com a gente lá no shopping. E como você sabe, sou um pouco lerdo com essas coisas -"um pouco?" Pensei- Então eu fui falar com minha mãe sobre nossa conversa -Arregalei os olhos- Mas calma, foi tudo tranquilo e ela abriu minha mente sobre... Nós.
-Me conte o que aconteceu, Ricardo -Apressei-o.
-Ela disse que eu agi feito um moleque com você.
-Sua mãe é sábia -Murmurei baixo.
-Também disse que há uma possibilidade de você estar afim de mim -Ela disse o quê?! Dessa vez, eu engoli em seco- E ela também me fez descobrir que eu também posso... hm... estar afim de você.
-Você acha que ela está certa? -Questionei com medo da resposta.
-Sobre o quê, exatamente?
-Sobre tudo. Sobre o que eu supostamente sinto, sobre o que você supostamente sente...
-Andei pensando sobre o que ela disse sobre os meus sentimentos e acho que ela está certa, sim -Afirmou, ainda me olhando fundo. 

Gelei na hora. Ele estava mesmo admitindo na minha frente que gosta de mim ou eu estou ficando louca?
Abri a boca para falar, mas nenhum som saiu porque eu não sabia exatamente o que dizer.

-Sobre os seus sentimentos que eu quero saber -Comentou- Acho que preciso tomar uma providência.
-Olha, Ricardo, você me pegou muito de surpresa mesmo e...
-Isa, está tudo bem -Ele me interrompeu, sabendo que eu estava meio impactada- Podemos conversar depois da aula? Com mais calma...
-Por mim, tudo bem.
-Te espero lá embaixo depois da aula.
-Tudo bem -Assenti- Eu... Vou voltar para a aula.
-Ok -Ele disse, acenando com a mão e se afastando aos poucos.

Entrei na sala quietinha, mas eu queria gritar de felicidade. Tentei conter o sorriso, mas o povo ficou olhando para mim de novo. Vocês não tem o quê fazer? Eu hein.

"Acho que preciso tomar uma providência"

Aquelas palavras não saíam da minha cabeça de jeito nenhum.

[...]

-Olha, vou falar logo porque eu não sou muito bom com as palavras e você sabe muito bem disso -Concordei, fazendo-o rir- Como já te disse, minha mãe disse que eu posso estar afim de você. De começo eu achei que não fosse verdade, confesso, mas depois eu fiquei pensando. Você pode não acreditar, mas olha o que eu desenhei durante a aula de uma das minhas matérias favoritas! -Ele tirou rapidamente um papel da sua mochila, mostrando-me um desenho.
-Isso é a minha cara? Você desenhou a minha cara, Ricardo? É isso mesmo? -Ele assentiu, rindo.
-Isso foi a gota d'água para eu reconhecer que posso estar gostando de você, sim.
-Ok, e o que isso vai mudar entre a gente?
-Isso depende só de você agora, Isabella -Disse, sério- Você gosta de mim?
-Se você fosse mais esperto, descobriria que eu gosto de você há um tempinho já.
-Eu sei, fui idiota...
-Mas já que você precisou conversar com sua mãe para descobrir isso, não vou mais esconder. Gosto, sim, de você.
-Isso é ótimo! 
-Por que?
-Agora você pode ser minha namorada.
-Hey, vai devagar, coisinha! -Disse, rápido.
-Ué! -Fez cara de espantado.
-Você quer namorar agora? Não quer esperar um pouco, ter certeza dos seus sentimentos? -Sugeri.
-Eu não quero, mas se você quer -Sorriu, me fazendo sorrir junto.
-Isso foi fofo -Comentei, apertando as bochechas dele.
-Eu sou fofo -Afirmou, convencido.
-E lento.
-Isso a gente deixa para lá -Rimos.
-E por que "deixa para lá"?
-Porque agora eu tenho você para me tirar da lentidão.

Um mês depois...

Estava tudo ocorrendo bem entre mim e Ricardo. Nós ainda não estamos namorando, mas houve um avanço imenso na nossa "relação".

1. Conversamos demais, seja pessoalmente ou por alguma rede social.
2. Estamos saindo para vários lugares. Já fomos ao shopping passear, ao parque, até em um museu.
3. Estamos FICANDO!
4. Aproveitamos o "pré" namoro para ir nos conhecendo mais um pouco. Conhecendo os amigos uns dos outros, as coisas favoritas...
5. Eu tô chamando ele de "Ri".
6. Teve um dia que ele ficou com ciúmes de mim. CIÚMES! Fiquei feliz, claro.
7. Ricardo passou na prova do militar e mês que vem vai ingressar na carreira. Fiquei orgulhosa pra caraca.

Mas enfim, apesar de tudo estar indo numa boa, às mil maravilhas, eu tinha que continuar estudando para o meu concurso. Mas beleza, eu consigo conciliar as duas coisas, tanto que agora, eu estou me matando de prestar atenção nessa aula chata pra caraca.

Após as aulas, saí correndo do curso. Marquei de me encontrar com o Ricardo no McDonald's do shopping. Ele tinha saído bem mais cedo que eu hoje.

[...]

-Oi, Ri. Cheguei -Me sentei na frente dele.
-Oi -Ele disse- Namora comigo?
-Quê? -Franzi a testa.
-Isso mesmo que você ouviu.
-Assim, na lata? -Comecei a rir.
-Sim, na lata -Continuou me encarando.
-É algum tipo de pegadinha? -Cruzei os braços, encarando-o, incrédula e com um sorriso no rosto.
-Juro que não -Cerrei os olhos- É sério!
-Então tá.
-Tá o quê? -Ele arregalou os olhos.
-Eu aceito namorar com você.
-Sério? -Abriu um sorrisão.
-Sério, Ricardo! Ou você não quer?
-QUERO, claro que eu quero!
-Então ok, estamos namorando -Disse, simples, mas gargalhando por dentro ao ver as reações dele.
-Tudo bem, namorada -Ele sorriu, me fazendo apertar suas bochechas e enchê-lo de beijos em seguida.

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